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segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Inevitabilidade do €uro



“Se a actual crise do euro não significar o fim da moeda única, andará lá perto. Pelo menos, representará o último capítulo de uma fase de lançamento cheia de promessas mas, também, de ilusões, imprudência e riscos subestimados.”
Esta frase proferida por um reputado economista europeu, reflecte bem o grau de incerteza e de descrença a que se chegou, relativamente ao futuro da moeda única europeia.
O leitor de certo já se interrogou várias vezes desde o seu aparecimento:
Que vantagens trouxe o euro para Portugal?
Ao aderir ao euro em 1999, Portugal aderiu a uma união monetária de moeda forte, dirigida por um banco (Banco Central Europeu) controlado pela Alemanha, como país motor da economia da zona euro, deixando os países aderentes a partir dessa data, de terem controlo efectivo sobre a política monetária e cambial dos seus países, e consequentemente, deixando de poder controlar a emissão de moeda, as taxas de juro e a taxa cambial.
A adesão significava também, a abertura de novos mercados e a simplificação das transacções entre países.
Perdeu-se soberania; Ganhou-se mercado.
De imediato, Portugal beneficiou de taxas de juro baixas e de uma moeda forte.
Em contrapartida, Portugal deveria tornar-se mais competitivo, modernizar a sua economia e aumentar as exportações, tornando-se menos dependente do exterior.
Mas falhámos!
Passada uma década desde a adesão ao euro, Portugal não conseguiu tornar-se competitivo. Continuamos a comprar muito mais ao estrangeiro do que aquilo que lhes vendemos. O euro como moeda forte contribuiu para este problema, pois a relação cambial encarece o que exportamos, e logo, dificulta a vida às empresas exportadoras, tornando mais barato o que importamos, o que nos torna mais dependentes do exterior, mais endividados, e logicamente mais pobres.
Só temos um caminho! Apostar na produção nacional e no sector exportador.
Invertermos a tendência! Vender mais ao exterior, e em contrapartida comprar menos.
Os apoios e investimentos públicos devem concentrar-se nas exportações, investindo nos chamados bens transaccionáveis (que se vendem nos mercados internacionais).
Devemos abandonar a política da obra pública de fachada, do betão, dos projectos megalómanos, que não geram riqueza, mas sim encargos para as gerações futuras.
Passada uma década, começa a falar-se demasiado no fim do euro.
Para além dos eurocépticos que nunca quiseram embarcar no euro, também os europeístas convictos por um lado e os subsídios dependentes de países como o nosso, por outro lado, estão muito desiludidos com a moeda única.
Mas sair, causaria uma turbulência financeira de consequências inimagináveis.
Imagino que teríamos um choque brutal e imediato de desvalorização monetária, porque de certo não iríamos retomar o escudo com o valor com que o deixámos em 1999, e por isso, tudo nos sairia mais caro, inclusivamente a dívida externa que deveria aumentar na proporção directa da desvalorização da nossa moeda.
Ficaríamos então ainda mais pobres e mais endividados.
Perante a inevitabilidade do euro, o caminho a seguir é estreito, mas passa seguramente por trabalhar com mais produtividade e consumir com menos endividamento.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Sonho Português


“Certa ocasião um banqueiro português recebeu um cliente a quem não queria dar crédito mas a quem não podia também dizer que não. Convidou-o então para dar um passeio pela baixa lisboeta. Regressados ao banco, disse-lhe: "eu não lhe empresto o dinheiro mas, depois de termos sido vistos juntos, qualquer um dos meus colegas o vai financiar.”•

Na última crónica abordei a crise do Subprime que teve o seu inicio nos EUA em 2007 e se propagou a todo o mundo em 2008.Portugal como economia aberta e muito exposta ao exterior, não ficou imune a todos estes acontecimentos e a crise financeira bateu também à nossa porta
Mas a pergunta que podemos fazer é se nós não contribuímos também para este estado de coisas? Se estamos isentos de culpas?
Pois é caro leitor; Portugal também não ficou imune a essa loucura desenfreada do crédito fácil. A pequena historia que se conta no inicio da crónica, diz-se, teve lugar na década de 80 do século passado. Do conservadorismo financeiro retratado então, passou-se para a vertigem do crédito e do consumo.
Quem de nós não foi contactado por carta ou por telefone por uma qualquer instituição financeira com a oferta de um crédito para "realizar o seu sonho".
Como tivemos de resistir - muitos não conseguiram (a maioria) - à oferta de crédito fácil para comprar casa (se já tínhamos uma devíamos comprar uma 2ªhabitação para casa de férias); para comprar acções e fundos de empresas que iriam sempre valorizar; para cartões de crédito, muitos e variados, para comprarmos computadores e ir-mos de férias para destinos paradisíacos.
Enfim, o”Sonho Português”.


Todos se deixaram embalar pela ilusão de um mundo de crédito sem factura. "Se os bancos nos emprestam é porque não há problema, eles sabem o que estão a fazer", diziam os cidadãos. "Se as pessoas aceitam o crédito é porque podem pagar, elas sabem o que andam a fazer", diziam os banqueiros, os reguladores e até os políticos.

Mas, afinal, ninguém sabia o que andava a fazer.
O problema é que nos habituámos a gastar um dinheiro que não tínhamos.
De exibir uma riqueza que não produzíamos.
O cidadão pedia emprestado ao banco; O banco pedia emprestado aos mercados financeiros internacionais e assim fomos caminhando alegremente até aos dias de hoje, quando de repente acordamos do sonho e pensamos no pesadelo.
Há cerca de uma década, que em Portugal se estava a ir longe de mais na concessão de crédito. Vários especialistas alertaram que o País estava endividado; recomendavam que se pusesse um travão na concessão de créditos, e muitas foram as vozes que avisaram que se estava a fazer um perigoso negócio de exploração do analfabetismo financeiro dos portugueses, sob a máscara do valor da liberdade individual.
Num mundo globalizado e turbulento, em que já ninguém confia em ninguém, a banca e as instituições financeiras internacionais, os chamados “Mercados”, olham para Portugal com desconfiança.
Olham para as nossas instituições públicas, para as nossas instituições financeiras, para as nossas empresas e para as nossas famílias e interrogam-se:
Como vão pagar o que nos devem?
Caro leitor, não desanime, não era essa a minha intenção, irei continuar em próximas crónicas a abordar estes temas, e talvez consiga abrir janelas de esperança, que nos ajudem a encontrar o caminho.


Publicado tambem no jornal ECOS , edição de 04/06/2010