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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Enfrentando a realidade





A história é simples de contar e de compreender. Portugal chegou à Europa em 1986 com um atraso estrutural, muitos problemas económicos e sociais por resolver, e uma baixa produtividade. Para superar estas sérias deficiências, a Europa mandou umas ajudas muito generosas. Infelizmente, todos esses avultados recursos foram essencialmente consumidos, e só em muito menor medida investidos e utilizados na recuperação do atraso estrutural. O nível de vida dos portugueses melhorou, mas não a sua produtividade. Os portugueses gostaram tanto que votaram em quem lhes prometeu dinheiro fácil e um nível de vida de país rico.
Quando os fundos europeus deixaram de ser suficientes para financiar uma economia profundamente estagnada, de baixa produtividade, mas com um nível de vida de país rico, Portugal descobriu o endividamento externo. Beneficiando do euro e das taxas de juro muito baixas, os portugueses, as empresas, e o Estado tudo financiaram com o dinheiro dos outros. Quando rebentou a crise financeira, Portugal encontrava-se na delicada posição de ter passado uma década economicamente estagnada mas generosamente financiado pelos mercados financeiros internacionais. Uma década em que os portugueses votaram alegremente em quem lhes disse que o endividamento externo nunca seria um problema.
Agora com as taxas de juro muito mais altas e sem ter feito nenhum esforço na recuperação do atraso estrutural desde 1986, Portugal encontra-se no abismo de uma economia estagnada e fortemente endividada, num processo de empobrecimento relativo. Uma crise económica e social mais grave que qualquer experiência dos últimos trinta anos.
A responsabilidade de Sócrates tem limites. Ele herdou uma bola de neve produzida pelo populismo dos seus antecessores, nomeadamente Cavaco e Guterres. Ele foi possivelmente o primeiro-ministro que mais fez para travar essa bola de neve, mas o que fez foi insuficiente, e depois perdeu-se nas loucuras eleitoralistas
E agora? Como e quando sairemos do buraco onde estamos metidos? Sinceramente acho que não vamos sair nos próximos dez anos. A década de 2010-2020 será de baixa produtividade, sem o generoso financiamento externo, portanto com uma grave redução do nível de vida dos portugueses. Esperam-nos anos muito duros.
Se os portugueses aprenderam a lição, nas próximas eleições esperam-se políticos com coragem, que digam a verdade, que saibam esclarecer que os próximos dez anos vão ser maus, e o que está em causa é fazer aquilo que não se fez em vinte anos para que a próxima geração possa viver melhor. Se o PS e o PSD voltarem com o discurso eleitoralista, das falsas promessas, das soluções milagrosas que acabam com a crise em 2013 ou 2014, e se os portugueses voltarem a votar nisso, então muito dificilmente teremos um futuro para oferecer aos nossos filhos. Não vale culpar os políticos por tudo o que corre mal. Eles apenas dizem o que os portugueses querem ouvir.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Centenário da República




Comemora-se este mês o centenário da proclamação da República em Portugal
E nada como uma comparação entre o Portugal de 1910 e o Portugal de 2010 para nos ajudar a perceber de onde vimos, onde estamos e para onde vamos.
O Portugal do início do século XX era um país à procura de si próprio: as crises sucediam-se; o Brasil tinha sido perdido em 1822, havia quase cem anos, as lutas liberais tinham trazido, na segunda metade do século anterior, a alternância de poder e alguma prosperidade.
Na Europa vivia-se um longo período de paz; desde 1870 que não havia grandes conflitos, e, como Eça de Queirós já tinha comentado anos antes, "podia viajar-se tranquilamente de Lisboa a Moscovo com um simples passaporte". O reinado do carvão estava no seu auge. Carvão que tinha sido responsável pela revolução industrial, mas tinha permitido também o aparecimento de uma nova classe, os proletários, com os conflitos inerentes a uma condição social precária. Adensavam-se já sobre a Europa as nuvens negras que em breve levariam a um conflito generalizado.
Em 1910, Portugal era um país rural e essencialmente agrícola; 78% da população era analfabeta. A maioria das casas não tinha saneamento, nem electricidade, nem sequer casa de banho. O automóvel era uma raridade. A natalidade era elevada, a mortalidade infantil também. As aldeias portuguesas produziam os bens alimentares que o país consumia, mas as importações (sobretudo de bens manufacturados) já superavam as exportações.
Nos 100 anos da República o reinado do carvão deu lugar, progressivamente, ao reinado do petróleo, o mundo transformou-se, surgiu a globalização. O século da República viu multiplicar por quatro a população mundial. Na verdade foi apenas o tempo de um "flash" na história do homem. A televisão, o automóvel, o avião e o turismo e, mais recentemente, a Internet, fizeram do planeta uma "aldeia global".
Portugal perdeu a África, democratizou-se, integrou-se na Europa. Acompanhou o progresso, e alterou a sua forma de viver, passou para o clube dos ricos. Em Portugal temos hoje um Estado Social, ensino gratuito e generalizado, acesso aos cuidados de saúde. A electricidade trouxe o conforto aos nossos lares, e libertou a mulher para o trabalho fora do lar. As pessoas estão protegidas no desemprego e na reforma. E até os mais carenciados não precisam de estender a mão à caridade pois o Estado garante-lhes o sustento.
Mas ao terminar o século da República o mundo começa a perceber que o planeta tem limites, que os recursos são escassos, e que estamos perigosamente a chegar à linha de fronteira, onde se advinha o fim da estrada. E é quando, paradoxalmente, nos pedem para acelerar, em vez de parar e esperar. Trinta e seis anos de democracia não nos podem trazer apenas liberdade de expressão e uma enorme manifestação de dualidade de critérios e irresponsabilidade nas decisões mais importantes para o futuro do País… Sem estratégia nenhuma sobre que sectores devemos ou não apostar e desenvolver.
Por exemplo, os noruegueses e suecos não necessitam de ter linhas TGV, milhares de quilómetros de auto-estradas, luxuosos estádios de futebol, “euros”, políticos e gestores públicos a deslocarem-se em carros de luxo, etc., para serem porventura as melhores e mais justas sociedades europeias, com os salários mais altos do velho continente… E no caso Norueguês nem tão pouco precisa de integrar a Comunidade Europeia.
Naturalmente à nossa pobre democracia faltam práticas fundamentais e uma classe dominante culta, tecnicamente evoluída e actualizada, desprendida de determinados bens materiais e, acima de tudo, educada e com vocação de serviço público. Não é possível fazer uma reforma da Administração Pública na sua base se as cúpulas não forem exemplares e capazes de bons exemplos.
Vamos entrar no segundo século da República, e tudo parece indicar que acaba um ciclo e vai começar outro. Os sinais de que algo está a mudar já são bem evidentes. Alguns já dizem que nós viemos do pior para o melhor, mas que os nossos filhos e os nossos netos irão do melhor para o pior!
Não sabemos é se as pessoas são hoje mais felizes do que eram há cem anos, e é pena não termos esse indicador. Para perceber se valeu a pena. Pois no fundo o que todos queremos é ser felizes.

P.S. -Terminei a minha colaboração no Município de Estremoz onde nos últimos 5 anos prestei serviços de Consultoria de Gestão. Foi uma experiencia enriquecedora e gratificante que termina com um sentido de dever cumprido. Quero aproveitar esta coluna para agradecer toda a amizade e colaboração que senti por parte dos funcionários municipais e desejar-lhes as maiores felicidades pessoais e profissionais.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Brincar com o fogo



Tudo corre mal pelas nossas terras, ao que parece. Ele é a despesa pública que cresce, quando todos juraríamos que tinha havido um compromisso em sentido contrário.
Ele é o desemprego que assusta e vai aumentando a olhos vistos, enquanto se discute se há décimas a mais ou décimas a menos e quais as estatísticas mais fiáveis. Eles são os partidos que não se entendem sobre os planos, os orçamentos, a revisão constitucional, as deduções fiscais, etc.
Ele é a justiça - ou, sobretudo, a falta dela -, as controvérsias da Casa Pia e esse sentimento difuso de que as coisas dos tribunais nunca têm propriamente um fim ou, quando muito, só o têm quando a prescrição bate à porta. Ele é o futebol nacional e as inenarráveis peripécias que este final de Verão nos trouxe. A lista seria interminável, como facilmente se poderá comprovar ao folhear um jornal ou ao ouvir as notícias na rádio ou na televisão que, dia após dia, nos empurram para um exercício de autoflagelação.
Há, claro, os incorrigíveis optimistas, com o Governo à cabeça. (ou parte dele, já que alguns dos seus membros terão entretanto cessado as respectivas funções sem que disso tenha sido dado pública conta).
A evolução das contas públicas nos primeiros sete meses deste ano revela-se hoje ainda mais preocupante do que no dia em que foi divulgada, em meados de Agosto. Hoje sabemos que, no conjunto dos países mais frágeis da Zona Euro, Portugal é o único que não está a conseguir controlar o défice público. Um facto que já está a aparecer nas análises dos economistas dos bancos, com os inevitáveis alertas sobre os riscos elevados de emprestar dinheiro ao Estado português.
É incompreensível, a subida de 5,7% na despesa corrente do Estado, excluindo os juros da dívida durante os primeiros sete meses deste ano. Em 2009, ano da recessão e de eleições, o mesmo tipo de gastos aumentou apenas 4,1%. O que se está a passar tem de ser desvendado. Não queremos acreditar que, após a crise que quase levou a Grécia ao colapso, o governo português tenha fingido adoptar medidas de austeridade para o Estado, quando, na realidade, apenas aumentou os impostos a todos os portugueses. É de uma enorme irresponsabilidade se o Governo apostou na passagem do tempo como o caminho para ultrapassar a pressão financeira dos mercados.
Países pequenos e endividados como Portugal, no tipo de crise de excesso de dívida como é a que vivemos no mundo, está sob uma perigosíssima ameaça. A qualquer momento, a mão do investidor que empresta pode transformar-se na mão de um algoz que nos atira para o colapso financeiro como aconteceu com os gregos. A tempestade financeira aparece sem avisar, como uma "gota que faz transbordar o copo" e com razões em geral tão difíceis de descortinar como a recente subida acentuada das taxas de juro da dívida portuguesa.